Escrevia-te uma mensagem todos os dias. Começava sempre com um "amor, hoje..." e acabava com um "até amanhã", como se nalgum dos dias houvesse amanhã para nós. Eu gostava de acreditar nisso. Se existia alguma coisa, porquê não existirmos nós?
As coisas começaram a ficar estranhas, estranhas mas engraçadas, porque estranho só por ser estranho só tem significado quando não é só estranho e tem graça. Graça, não piada. Respeitava-nos assim. Desta forma estranhamente engraçada, heroicamente sem piada. E já viste como o tempo passou? Hoje não somos mais nós e o objecto de fé mudou. Começo a achar que tenho que me tornar mais pessoal, não recear expôr-me e ser mais do que eu própria sou, superar-me. É engraçada, e engraçada sem ser estranha, esta coisa de nos superarmos. Desenvolvi esta curiosa teoria em que como só nos superamos quando descobrimos o quão miseráveis somos. É essa noção de miséria íntima que nos leva a ambicionar algo que, no ponto em que nos encontramos, parece ser melhor. No fundo, acho que era por isso que te enviava mensagens todos os dias, na esperança que na tua resposta pudesse encontrar alguma salvação da minha miséria tão pessoal. E, repara!, ser miserável ganhou a meus olhos, ao longo destes anos, a mais considerável posição. Sermos miseráveis nas nossas dores, nas paixões, nas mentiras. Completa, irrepreensível, estupidamente miseráveis. Assim o sejamos, reconheçamos as loucuras e as manias. Reconheçamos quem fomos e quem somos. Se é para sofrer, que soframos até que as entranhas se revolvam. Se é para amar, que amemos como se amanhã fôssemos cair inanimados e para sempre adormecidos em cima da cama onde amamos, onde amámos. Sejamos nós, sejamos miseráveis.
Se te pudesse enviar uma mensagem hoje, escreveria apenas "vivi-te". Não esperaria pelo amanhã, nem te contaria sobre os dias que passaram e nos quais não estiveste presente. Senti-me miserável durante tanto tempo, incompreensivelmente tentando alcançar aquilo que ambicionava e agora que alcancei, sim, agora que alcancei este sentimento de missão cumprida (vindo não sei bem de onde) só me apraz dizer... "vivi-te".
É isso ai.
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